Eu não consigo sentir meu lado certo de você porque você é só uma sugestão, e tudo que eu te der vai ficar suspenso num universo sobre nossas cabeças enquanto eu fico tentando encontrar o chão.
O cigarro entre os dedos não faz mais sentido, de uma hora pra outra. Parece que tudo insiste em ser assim, ou eu não consigo perceber que vai esvaindo, minha mente fixa em outras coisas enquanto algo vai embora, e quando eu saio da fixação, já foi.
Os dias sem você não são mais tão difíceis como antes, hoje me arrancam em agonia os dias em que não consigo me encontrar em lugar algum, e então eu choro, desesperadamente, eu choro, porque é a única forma que eu sei de encontrar um pedaço orgânico de mim mesma.
Tenho pensado em mudar pra uma casa menor, menos tudo, menos desse meu ego que me infla e parece que vai tomar conta de tudo. Eu gostaria de menos, e isso ainda é tão abstrato. Os móveis da sala estão no mesmo lugar há mais de dois anos, desde que entrei e depois de todas as pessoas que entraram e saíram, com ou sem mim, depois de todos os amores que se criaram aqui, depois da morte anteposta embaixo do sofá da sala, onde depois só ficou o vulto da minha fértil imaginação.
Microscopicamente gotas de sangue ainda estão ali, não tenho dúvidas disso. Porque eu teria? Não é sangue de morte, nem de quem arranca casquinha de machucados, é sangue de vida pulsante, escorrendo pelos poros, pulando pra fora por todos os orifícios. BPM 140, olhos vidrados e sangue microscópico no chão de madeira da sala de estar. Isso, meu bem, você nunca vai entender realmente.
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